O Met Gala, evento anual do universo da moda, realizado em Nova York com a presença de celebridades, estilistas e marcas de luxo em looks extravagantes e performances cuidadosamente planejadas, viralizou nas redes sociais. Desta vez, além da expectativa pelas roupas carregadas de teatralidade e narrativa, o que também chamou atenção não foram apenas os vestidos ou famosos presentes, e sim a quantidade de imagens falsas criadas por inteligência artificial.
Durante o evento, fotos hiper-realistas de celebridades que eram esperadas por seus fã-clubes no tapete vermelho, mas não estavam presentes, foram amplamente divulgadas, usando looks que nunca existiram, e circularam como se fossem reais, enganando milhões de pessoas em poucas horas.
No Brasil, isso talvez fique ainda mais fácil de entender quando pensamos em eventos como o Carnaval ou o Big Brother Brasil. Imagine uma imagem falsa de uma atriz na Sapucaí usando uma fantasia polêmica, ou um vídeo manipulado de um participante do reality dizendo algo que nunca disse. Em poucos minutos, o conteúdo viralizaria em grupos de WhatsApp, páginas de fofoca e perfis de notícia antes mesmo de alguém conseguir verificar a autenticidade.
A inteligência artificial já ultrapassou a fase da “curiosidade tecnológica”. Hoje, qualquer pessoa consegue gerar imagens, vídeos e áudios extremamente convincentes com poucos comandos. O problema não é apenas a mentira existir, já que as fake news sempre existiram, mas o fato de agora elas virem acompanhadas de “evidências” visuais capazes de enganar até pessoas mais atentas.
Esse cenário deixa de ser apenas cultural ou comportamental quando entra no campo institucional. No Brasil, a Justiça Eleitoral brasileira já reconhece o potencial de dano desse tipo de conteúdo e passou a prever consequências concretas. O uso de deep fakes para influenciar eleitores pode levar à cassação de candidaturas, além de outras sanções, especialmente quando há intenção de desinformar. Em paralelo, tornou-se obrigatório sinalizar quando um conteúdo foi produzido por inteligência artificial, reforçando a ideia de que transparência não é mais opcional, mas parte da legalidade.
E não se trata apenas de teoria. Casos recentes envolvendo figuras públicas mostram como conteúdos manipulados já motivaram denúncias formais e judicialização, principalmente quando atingem reputação ou exploram desinformação sensível, como ocorreu com materiais falsos atribuídos a candidatas brasileiras, enquadrados inclusive como violência política de gênero.
Um outro exemplo, porém sem o uso de manipulação de imagem de figuras públicas, é a Dona Maria, uma mulher negra e idosa criada com IA e que viralizou nas redes sociais, chegando para muitos brasileiros como se de fato existisse, e cujo objetivo é fazer críticas contundentes ao atual governo e aos ministros do Superior Tribunal Federal. Sem gerar reflexão, sem empatia com causas e situações reais do dia a dia – apenas desinformação.
Ao mesmo tempo em que tudo isso acontece, decisões judiciais já indicam que nem toda manipulação será considerada ilegal, o que revela um cenário em que a interpretação técnica e jurídica ainda está em construção.
Diante desse avanço, as regras também evoluíram. Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou normas específicas para o uso de inteligência artificial em campanhas, incluindo regras mais rígidas em períodos próximos à votação e diretrizes voltadas às plataformas digitais. O objetivo é conter a circulação de conteúdos enganosos antes que eles produzam efeitos irreversíveis no processo democrático.
E é impossível não pensar no impacto da IA na população durante as próximas eleições no Brasil. Se um vestido inexistente no Met Gala já consegue convencer tanta gente, imagine vídeos falsos de candidatos, discursos manipulados ou imagens fabricadas circulando às vésperas de uma votação – agora, não apenas como um problema de desinformação, mas como uma possível infração com consequências legais diretas. O maior desafio da era da IA talvez não seja mais acessar informação, mas reaprender a questionar aquilo que parece real. Porque daqui para frente, ver já não será suficiente para acreditar.
Num mundo em que qualquer imagem pode ser fabricada e qualquer vídeo pode parecer real, talvez o verdadeiro valor da imprensa tradicional volte a ser exatamente este: verificar antes de publicar, apurar antes de viralizar e preservar a verdade antes que ela seja substituída pelo algoritmo. Uma função que, além de ética, torna-se cada vez mais essencial também para a própria integridade do debate público.