Case

GLOBO DE OURO: O que o filme e a conquista de Fernanda Torres comunicam?

O que o filme e a conquista de Fernanda Torres comunicam

É do Brasil! Os olhos do mundo se voltaram para Fernanda Torres na noite deste domingo (5/1), devido à atriz ter conquistado o Globo de Ouro de melhor atriz de filme de drama por “Ainda Estou Aqui”, do diretor Walter Salles (2024). Na premiação organizada pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, dedicada à cobertura e divulgação da indústria do cinema e televisão mundial, a brasileira desbancou Angelina Jolie, Kate Winslet, Nicole Kidman, Pamela Anderson e Tilda Swinton. O feito acontece 25 anos após “Central do Brasil”, também de Salles (1998), vencer o Globo de Ouro como melhor filme em língua estrangeira, em 1999, e a mãe de Torres, Fernanda Montenegro, ter sido indicada na mesma categoria que sua filha venceu.

E não é para menos tal reconhecimento de Torres e de “Ainda Estou Aqui”. Desde que foi lançado, o filme e sua atuação têm chamado a atenção da crítica especializada e de espectadores em diversos países. Apenas para relembrar: no ano passado, o longa-metragem recebeu prêmios no Festival de Cinema de Vancouver, no Festival de Cinema de Miami e na Mostra de Cinema de São Paulo. Também, sua apresentação na grande tela foi aplaudida durante 15 minutos no Festival de Cinema de Veneza, onde o filme teve o roteiro reconhecido com a Osella de Ouro.

Mas o que o filme e a conquista de Torres no Globo de Ouro comunicam?

Entre os diversos aspectos, vale destacar que, embora as produções de língua inglesa, bem como os atores e as atrizes de países como os Estados Unidos e da parte ocidental da Europa tenham mais visibilidade por fatores como investimento, tradição na indústria cinematográfica e, claro, talento, há filmes, atores e atrizes de outras regiões do globo fazendo excelentes trabalhos e que merecem reconhecimento. Cada vez mais, premiações internacionais como o Oscar e o Globo de Ouro têm visto e valorizado. Por isso, o longa-metragem sul-coreano Parasita levou o Oscar de melhor filme em 2020.

A crítica especializada também têm papel fundamental nas indicações. Em entrevista à Globo após receber o prêmio, Torres lembrou que fora entrevistada e mencionada antes do Globo de Ouro em publicações de renome como o jornal The New York Times, as revistas Variety e W Magazine e o portal Deadline. Alguns desses veículos de imprensa se posicionaram pela vitória dela. Ou seja, tal crítica realmente cumpre seu papel de ser um observatório do cinema mundial e de projetar o que é produzido de melhor em escala mundial.

Uma menção deve ser feita à mobilização dos brasileiros nas redes sociais após o lançamento do filme. Milhares de brasileiros promoveram uma invasão a perfis como do Oscar e do Globo de Ouro que tiveram publicações com Torres com mais curtidas, comentários e compartilhamentos que as com celebridades hollywoodianas. Sem dúvidas, se não interferem nas indicações, a torcida verde-amarela dá maior visibilidade a Torres e pelo menos promove mais engajamento a esses perfis. Bom mencionar que o Brasil é o segundo país que mais usa a internet por dia no mundo, atrás apenas da África do Sul, segundo ranking da empresa Proxyrack, de 2023.

Ademais, como lembrou Torres em seu discurso ao receber a estatueta, a própria temática de “Ainda Estou Aqui” merece atenção. O filme narra a história de Eunice Paiva (1929-2018), cujo marido, o engenheiro e político Rubens Paiva, foi preso, torturado e morto pelo regime militar brasileiro, em 1971. O casal teve cinco filhos, entre eles Marcelo Rubens Paiva, escritor e autor do livro homônimo de 2015 que inspirou o roteiro do longa-metragem. Ela então se muda com os filhos do Rio de Janeiro para São Paulo, onde já mais madura se forma em Direito e passa a lutar pelos direitos dos desaparecidos durante a ditadura no Brasil.

Mesmo que faça um recorte histórico do regime militar (1964-1985) e no Brasil, o filme aborda as consequências de um contexto político de exceção e que, como frisou Torres em seu discurso no palco da premiação deste domingo, encontra semelhanças com outras realidades políticas e sociais de medo que acontecem ainda hoje no mundo. Ademais, Eunice se tornou uma referência na luta pelos direitos indígenas, sendo retratada sua relação com a antropóloga luso-brasileira Manuela Carneiro da Cunha. Por essa temática, aliás, ela foi consultora da Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a dita Constituição Cidadã, em 1988, um marco da democracia brasileira e mundial. Assim, com a vitória no prêmio internacional, a luta pelos direitos humanos tem notoriedade.

Agora é torcer para novas indicações e conquistas! Em janeiro, já teremos o prêmio Critics Choice, da Broadcast Film Critics Association (BFCA), a maior organização de críticos de cinema dos Estados Unidos e do Canadá, no qual “Ainda Estou Aqui” concorre na categoria melhor filme de língua estrangeira. Em fevereiro, ocorre o BAFTA, considerado o “Oscar britânico”, no qual o filme foi pré-indicado na categoria filme de língua não-inglesa. E em março, acontece o Oscar, o auge da celebração no cinema no mundo e para o qual o longa-metragem foi pré-indicado para melhor filme internacional. Torres é só alegria. 

Como ela mesma disse em entrevistas e em seu discurso no Globo de Ouro, apenas pelas indicações em premiações internacionais junto com a nata da indústria cinematográfica, já podemos considerar a produção de Salles e sua atuação vencedoras.

A vida presta!